PRIMEIRA VIAGEM – 09/07/2005 a 26/07/2005

•janeiro 20, 2008 • 1 comentário

 

 

Amostras 1, 2, 3 e 4 (Ipanema, Leblon, Arpoador e praia do Diabo).

No dia 09 de julho de 2005, sábado, embarquei num vôo TAM com destino ao Rio de Janeiro às 03:05 h para realizar a prova de um concurso para a ANCINE, a Agência Nacional de Cinema, no dia 10, domingo. No dia 11 de julho, segunda-feira, visitei o Corcovado pela primeira vez, era manhã e à tarde fui ao Palácio Imperial de São Cristóvão, onde decidi iniciar uma coleção de areia de praia. Embora more no Recife, cidade litorânea, onde vejo o Alântico pela varanda de meu apartamento, foi no Rio de Janeiro que me veio a inspiração de colecionar areia de praia. No dia seguinte, logo cedo, fui ao centro, à Rua Buenos Aires encontrei numa loja que vende artigos de perfumaria e essências, comprei 10 frascos pet, transparentes, com tampa rosqueada, que me pareceram apropriados para armazenar pequenas quantidades de areia com praticidade e segurança, logo voltaria lá pra comprar mais porque a quantidade se mostrou insuficiente já no inicio da coleta.

A amostra Número 1 foi colhida em Ipanema, Rio de Janeiro/RJ, em 12/07/2005, no ponto onde a rua Farme de Almoedo encontra-se perpendicularmente com a avenida Vieira Souto, local também conhecido como Posto 9, por haver um posto de salva vidas com esse número de ordem. O local é famoso por concentrar grande quantidade de gays. Há, nesse local, uma bandeira com as cores do arco-íris hasteada num pau tremulando ao vendo que vem do mar delimitando aquele local e as proximidades como de tolerância ao encontro desinibido de homossexuais masculinos de todas as procedências do mundo. Na verdade essa área não se resume àquele trecho de Ipanema, a minha caminhada revelou que todo o litoral brasileiro é permissivo. Ainda se vê passar a garota de Ipanema, mas hoje são os garotos de Ipanema que se tornaram a maior atração da praia.

A palavra Ipanema significa significa água ruim, podre, fedorenta, encontrei também o significado de “águas perigosas”, em tupi-guarani. Para a segurança do banhista este último significado é um alerta, ele deve ter precaução com as fortes correntezas e com a arrebentação, pois é um trecho do litoral de mar aberto, sujeito a ressacas. Ipanema também é nome de um rio temporário que banha os estados de Pernambuco e Alagoas e é afluente do São Francisco no baixo curso. O significado dos topônimos nos diz muito sobre sua natureza. O destino das lagoas de restinga, como a Rodrigo de Freitas, é tornar-se pântano e o gradual assoreamaneto leva elas a desaparecerem com o tempo, formando campos e depois florestas. Mas antes que isso ocorresse veio a urbanização do seu entorno, a cidade cresceu com pouco planejamento, com isuficiente rede de coleta de esgotos, as lagoas se tornaram o local de despejo sanitário. A água estagnada da lagoa Rodrigo de Freiras deveria ser bem fedorenta mesmo sem os egotos, quando chegava os meses mais secos do ano, com o calor, com a moratandade de peixes, com a pouca oxigenação. Nas chuvas torrencias ela devia escoar pelo canal deixando o mar também imundo com os dejetos. Antes de ter nome de gente havia outra denominação para a lagoa: Sacopenapã, que significa “lagoa de socós”, ave que se alimenta de peixes mortos.

O gereferenciamento do ponto de coleta é 22°59’12.99’’ S 43°12’02.96’’ W mas ninguém precisa dessas coordenadas para chegar lá e reconhecer o lugar dessa primeira amostra, se acha fácil e quem chega desacompanhado aí não demora a encontrar uma companhia, nem que seja de um vendedor ambulante. Ipanema é um bairro que consolidado a partir de um loteamento contemporâneo ao do Leblon, em 1919. Antes disso, na área conhecida como praia de Fora, de propriedade de José Antônio Moreira Filho, o Barão de Ipanema, era parte da Fazenda Copacabana, local de difícil acesso para quem morava no Rio. Apesar dos obstáculos naturais, o Barão decidiu explorar a área comercialmente, em 1894 foi construída a Villa Ipanema. A partir dos anos de 1950 e até hoje o bairro tornou-se ponto irradiador de moda e cultura para o Brasil e o mundo. Ipanema é o local onde se originou a Bossa Nova e nos últimos 60 anos sempre se espera o que de lá vai surgir no verão. Mesmo que não surja nada na estação, o pôr-de-sol deslumbrante é aplaudido pelos banhistas que ainda têm a agitação da noite para aproveitar.

Mais tarde, deste mesmo dia, coletei a amostra número 2, no Leblon, para onde fui caminhando pelo calçadão de pedras portuguesas. O desenho deste calçadão identifica o trecho do litoral do Rio limitado pela ponta do Arpoador (leste) e pela ponta de Dois Irmãos (oeste). Essas pontas são mirantes de onde se tem vistas da cidade e das praias. O que antes era uma restinga habitada pelos índios Tamoios, entre e lagoa e o mar, semelhante com muitas outras desse litoral, hoje está ocupada pela urbanização. Estes são, talvez, os bairros melhores para se viver no Rio.

A praia do Leblon é o trecho compreendido entre o canal do Jardim de Alah e a ponta de Dois Irmãos, onde deságua o canal em cuja margem corre a avenida Visconde de Albuquerque. Já foi chamada de praia Brava pelos primeiros habitantes portugueses e seu nome atual rende homenagem ao proprietário das terras do século 19, o francês Charles Le Blon que instalou a fazenda conhecida como “O Campo do Leblon” e a empresa de pesca de baleias “Aliança”, que produzia óleo para a iluminação pública da cidade e para outros usos, como a construção civil. O Leblon, pouca gente percebe, é uma ilha onde ao sul está o oceano Atlântico, ao norte a Lagoa Rodrigo de Freitas. Ligando a lagoa ao mar estão o canal do Jardim de Alah, à leste, e o canal da avenida Visconde de Albuquerque, a oeste. Esses canais e a lagoa, hoje poluídos, já tiveram águas limpas e pesca abundante. A amostra número 2 foi coletada no ponto onde a rua Rainha Guilhermina encontra-se perpendicularmente com a avenida Delfim Moreira (presidente da república entre 1918-1919), nome apropriado para uma rua a beira-mar porque delfim é o mesmo que golfinho. Esta avenida é o prolongamento da avenida Vieira Souto. Entre os dois canais, a extensão de areia é de 1.250 metros.

Já era quase noite quando retornei pelo mesmo caminho e coletei as amostras número 3 e 4, respectivamente, na praia do Arpoador e na praia do Diabo. A da praia do Arpoador foi coletada defronte ao parque Garota de Ipanema, onde há o calçadão de pedestres. A da praia do Diabo foi coletada a uns 60 metros na direção leste do ponto de coleta da amostra 3, são portanto duas amostras muito próximas. A praia do Diabo tem uns 850 metros de extensão com três trechos de areia; no primeiro trecho, da ponta do Arpoador até as primeiras pedras, a praia é aberta ao público; nos dois trechos seguintes ficam em área militar cujo acesso é restrito, pois é o acesso a uma vila residencial e ao Forte de Copacabana. Desconheço a origem do nome dessa praia, desconfio que a força das ondas arrebentando naquelas pedras faz um barulho dos diabos, daí o nome. No pé do barranco que desce do parque Garota de Ipanema há aparelhos de musculação freqüentados por rapazes que praticam sexo sem preconceito.

Não é fácil delimitar a extensão das praias pelos nomes populares que elas têm. Se passa da praia de Ipanema à praia do Arpoador sem perceber, pois consistem de uma mesma extensão quase indistinta de ambiente natural e ambiente construído. Considerei que os limites da praia de Ipanema são: do canal do Jardim de Alah até o ponto da avenida Vieira Souto onde o fluxo do trânsito em direção à Copacabana segue à esquerda pela rua Francisco Otaviano, ou seja, uma extensão de 2.150 metros. Deste ponto da rua Francisco Otaviano com a Vieira Souto até a ponta do Arpoador a praia tem apenas 450 metros. Este é um ponto de prática de surf, o mar avança e quase não há ponto de coleta de areia, pois a água invadiu a pré-duna. Na ponta do Arpoador ainda há pescadores pois o local é um ponto onde se captura espécies de peixes esportivas e nobres. A origem do nome se deve ao fato de que era do alto dessas pedras que a empresa “Aliança”, de Charles Le Blon, arpoava baleias. Ainda hoje se avistam baleias nesse litoral, talvez eles tenham diminuído com a pesca excessiva. A pedra do Arpoador é tombada pelo Patrimônio Histórico Municipal e possui 28.720m de áreas ajardinadas. O nome do parque é em homenagem à composição de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. É um local de espetáculos musicais, possui pista de skate, brinquedos infantis e um mirante de onde se pode apreciar a praia de Ipanema, do Leblon, o pôr do sol entre o Morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea. No local há flertes que justificam os versos de Cazuza: “Vago na lua deserta das pedras do Arpoador”.

Como estas praias estão em área densamente urbanizadas, muito de seu aspecto primitivo desapareceu completamente, entretanto algumas características morfológicas mais pronunciadas ainda perduram. Ainda se percebe o cordão de sedimentos litorâneos represando a lagoa, ao norte a serra da Carioca onde está a Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, e ao sul o oceano Atlântico. A fauna tornou-se rara, novas espécies vegetais foram introduzidas e a poluição da água por dejetos domésticos e industriais são percebidos até pelo olho menos atento. Esses bairros da Zona Sul carioca não eram local de residência nem de qualquer outra atividade intensa até o inicio do século XX quando os núcleos primitivos das cidades foram considerados insalubres e inadequados ao padrão de vida da sociedade que se industrializava. Estes núcleos primitivos deixaram de ser local de moradia das famílias que podiam optar por morar em bairros mais afastados, portanto mais salubres. A moradia na praia passou a ser uma distinção, os grupos sociais mais abastados usam a praia para obter visibilidade, para afirmar-se. A cidade do Rio de Janeiro criou esses novos bairros, fora da baía de Guanabara, nos terrenos desabrigados onde outrora os corsários poderiam atacar com facilidade, onde hoje habita grande parte de sua população, um padrão de vida e comportamento que outras partes do Brasil copiaram.

Sem poder rivalizar com o astro-rei, aquela tarde, das primeiras amostras, também merece uma salva de palmas. Era uma tarde sem calor, com pouca agitação na praia, mas numa paisagem incomparável. Somadas as extensões dessas quatro praias, nesse coletei amostras que em linha representam 4,7 Km do litoral brasileiro, que tem mais de 8 mil km (os números variam entre 9.198 e 7.367 Km). Às 20 horas voltei pra casa de Wilson, na rua Barão da Torre, onde estava hospedado. No dia seguinte teria dois trechos da cidade do Rio de Janeiro para coletar areia, o primeiro ainda na Zona Sul, o segundo na Zona Oeste.

Ipanema, Leblon, Arpoador e praia do Diabo fazem parte da unidade hidrográfica chamada de Compartimento de Jacarepaguá, uma das nove divisões adotadas pela Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (SERLA, 1995) considerando a morfologia do litoral e as áreas de influência costeira das principais bacias hidrográficas. Esta unidade vai até Pedra de Guaratiba.

 

Amostras 5 e 6 (Copacabana e praia do Leme).

No dia seguinte, 13/07/2005, logo cedo fui de Ipanema a Copacabana onde cheguei as 10 h. Pelos dados da Superintendência Estadual de Rios e Lagoas a partir desta praia começa a unidade hidrográfica chamada de Compartimento da baía de Guanabara. A amostra número 5 foi coletada no ponto onde a rua Júlio de Castilhos encontra-se perpendicularmente com a avenida Atlântica, defronte ao edifício Ipiranga onde, na cobertura, Oscar Niemeyer tem escritório com vista para as mulheres, o mar e as montanhas inspiradoras de suas obras, como ele mesmo confessa. O trecho entre essa rua que homenageia o governador positivista gaúcho e a ponta de Copacabana é local onde alguns pescadores ainda hoje abrigam seus apetrechos de pesca e comercializam o peixe, é o popular Posto 6 do salva-vidas.

Copacabana é o Marco Zero do Brasil. Tão brasileira, seu nome é de origem quéchua. A original está a 2 mil e 800 km de distância do Rio, na beira do lago Titicaca, é uma cidade a mais de três mil e oitocentos metros acima do nível do mar, cercada pelas montanhas andinas, histórica e centro religioso da Bolívia, fronteira com o Peru, capital da província Manco Capac. Durante a civilização Inca ali se cultuava o Sol, a Lua e outras divindades. O Lago Titicaca era um local sagrado, onde os antigos incas idolatravam o deus “Qopaqhawana”, que quer dizer: “mirante do azul”. O nome tomou a grafia de Copacabana, a partir de 1538, com a presença dos espanhóis.

Em fins do século XIX uma réplica da imagem da virgem de Copacabana foi enviada ao Rio de Janeiro e ficou por muitos anos numa capela (construída no século XVII e demolida em 1920) dedicada a essa santa no local onde hoje é o Forte. Rubem Braga escreveu uma crônica intitulada “Ai de ti Copacabana”, em 1958, onde faz a premonição do fim do bairro, que será tomado pelo mar como Sodoma e Gomorra, por pecados semelhantes, foram tomadas pelo fogo. Com a elevação do nível do mar, em conseqüência do aquecimento global, esse fim está cada dia mais próximo. Braga, de cronista será considerado profeta.

O fogo e a água são purificadores, mas a idéia de um bairro higienista não veio da Bíblia nem é nenhuma invenção carioca, mas uma tendência mundial do final do século XIX e começo do século XX. O doutor Figueiredo Magalhães, morador de uma chácara no bairro nos anos de1880, passou a apregoar os benefícios terapêuticos dos bons ares e banhos de mar a seus pacientes. A partir de então o bairro ficou associado à saúde física e mental, não se impressione quem chegar nessa praia e encontrar muita gente praticando exercícios físicos, fazem parte de uma geração-saúde com mais de cem anos.

A urbanização começou com a abertura do Túnel de Copacabana, em julho de 1892, que liga o bairro à Botagogo e daí ao resto da cidade. Em 1906 o prefeito Pereira Passos iniciou as obras de construção da Avenida Atlântica, paralela, pelo lado do mar, à já traçada Avenida Nossa Senhora de Copacabana. A Pedra do Ingá, que existia onde hoje está o Copacabana Palace, foi arrasada para o calçadão estender-se sem interrupção até o Leme. O piso foi feito com pedras pretas e brancas, um desenho de linhas ondulares que incorporou-se à paisagem local. Este desenho de piso, cuja autoria desconheço, é o primeiro bem sucedido projeto de design urbano brasileiro. A avenida ficou pronta em 1919. Com a inauguração do Copacabana Palace Hotel, em 1923, teve inicio a verticalização e o período de maior prestígio do bairro. Prestigio que não diminuiu mesmo com o surgimento de novos arrabaldes. Pobres e ricos moraram em Copacabana, os pobres nos morros do Cantagalo e Babilônia, os ricos na planície longa, estreita e arenosa.

O ambiente natural da orla de Copacabana está bastante deteriorado pela ocupação urbana intensa. A faixa de areia é um aterro feito nos anos de 1970 e o pouco de vegetação que ainda há é replantio de espécies locais e espécies exóticas; é em terrenos de declividade acentuada (Ponta do Leme, morro da Babilônia, morro de São João, morro dos Cabritos e Cantagalo) que ainda há cobertura vegetal original e alguma fauna, portanto bem longe do mar. Eventos de grande proporção costumam acontecer no local, como o reveillon em dezembro. Durante o resto do ano sempre há shows musicais, competições esportivas e a presença constante de banhistas. A areia coletada nessa praia deverá apresentar vestígios dessas atividades.

A continuação da praia de Copacabana é conhecida como Praia do Leme, que fica junto à ponta do mesmo nome, nessa praia começa a contagem dos postos salva vidas, aí fica o Posto 1. De onde vem esse nome? Leme é o dispositivo que serve para dar a direção de uma embarcação. Não encontrei nenhuma explicação convincente da adoção desse nome ao local. A amostra numero 6 foi colhida à direita da confluência entre a avenida Atlântica e a rua Anchieta. Perto dali estava Preta Gil vestida de Mulher Maravilha com uma equipe de TV gravando imagens para a divulgação de seu segundo álbum, Preta. Nas praias do Rio não é difícil encontrar uma celebridade local ou internacional, mas não há nada tão interessante quanto os anônimos. Essas praias são cenário para todo tipo de peça audiovisual, muitas são tediosas, desmerecem o local, poucas são tão interessantes como a cena de Norma Benguell pelada em Noite Vazia (Walter Hugo Khoury, 1964), gravada na então longínqua praia de São Conrado.

A extensão de areia entre a ponta de Copacabana e a ponta do Leme é de 4 Km; considero que a fronteira entre os dois bairros se dá no eixo da avenida Princesa Isabel perpendicular à avenida Atlântica. Portanto o Leme tem uma extensão de 950 m e Copacabana tem uma extensão de 3.050 metros. Contornando a ponta do Leme há o Caminho dos Pescadores, uma passarela fixada na rocha onde os adeptos da atividade lançam suas iscas ao mar. É um passeio agradável porque a pedra é um mirante privilegiado da praia. No topo há o forte Duque de Caxias, a área é considerada de proteção ambiental (APA). Paralela à estreita faixa de areia há um morro chamado de Babilônia, transpondo-o na direção norte se chega ao morro da Urca. Mas eu não segui nessa direção. A coleta no Leme foi feita rapidamente, logo em seguida apanhei o Surf Bus na avenida Princesa Isabel, por volta das 11 h, e desembarquei no ponto final, na Prainha, ao meio-dia.

 

 
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